A Mulher Que Antecipou a Pulsão de Morte
Fundamentos da Psicologia
Gustavo Sanches
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Como Sabina Spielrein formulou, em 1912, ideias que Freud reconheceria oito anos depois em uma nota de rodapé, e como sua análise com Jean Piaget ajudou a moldar um dos maiores nomes do desenvolvimento infantil.

Como Sabina Spielrein formulou, em 1912, ideias que Freud reconheceria oito anos depois em uma nota de rodapé, e como sua análise com Jean Piaget ajudou a moldar um dos maiores nomes do desenvolvimento infantil.
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A paciente que virou nota de rodapé
Durante décadas, o nome de Sabina Spielrein apareceu na história da psicanálise sob uma única moldura:
A jovem internada como "paciente histérica" no Burghölzli, tratada por Carl Jung, com quem viveu um envolvimento que ultrapassou os limites da relação clínica.
Essa versão não é falsa. É apenas incompleta.
Sabina se recuperou, formou-se em medicina pela Universidade de Zurique em 1911 e passou a produzir psicanálise no mesmo nível dos nomes que hoje ocupam os manuais. O que ela escreveu nos anos seguintes revela uma mente que não apenas participou do nascimento da psicanálise, mas antecipou um de seus conceitos mais radicais.
A ideia que Freud levaria oito anos para reconhecer
Em 1912, Spielrein publicou "A Destruição como Causa do Devir". A tese central era incômoda para a psicanálise da época:
Todo processo de criação carrega em si um componente destrutivo. Para que algo novo nasça, algo precisa se desfazer.
Essa fusão entre impulso construtivo e impulso destrutivo era, para Spielrein, inerente à própria pulsão sexual.
Freud, a princípio, resistiu à ideia de uma pulsão voltada para a destruição. A psicanálise daquele momento estava organizada em torno da libido, do prazer, da busca por satisfação. Uma força que empurrasse o organismo em direção ao contrário não cabia facilmente nesse modelo.
Oito anos depois, em 1920, o próprio Freud apresentaria a Pulsão de Morte em "Além do Princípio do Prazer", um dos textos que redefiniram a teoria psicanalítica das pulsões. Em uma nota de rodapé, reconheceu que boa parte daquela especulação já havia sido antecipada por Spielrein, embora tenha comentado que o texto dela não lhe parecia inteiramente claro. O crédito existiu. Mas ficou onde ficam as contribuições menores na história da ciência:
No rodapé de um clássico assinado por outro nome.
A analista que formou um dos maiores nomes da psicologia do desenvolvimento
O trabalho de Spielrein não se encerrou na teoria das pulsões. Ela foi uma das primeiras a sustentar que a psicose e os delírios carregam sentido oculto, uma leitura que abriu caminho para pensar o sofrimento psicótico como algo a ser decifrado, não apenas descrito. Também se tornou uma das pioneiras da psicanálise infantil, em um momento em que esse campo praticamente não existia como área de estudo sistemático.
Foi em Genebra, a partir de 1921, trabalhando no Instituto Rousseau ao lado de Édouard Claparède, que Spielrein teve um de seus encontros mais decisivos. Jean Piaget, então um jovem pesquisador que também integrava o instituto, passou por um período de análise com ela. O contato entre os dois não ficou restrito ao consultório: as ideias de Spielrein sobre o desenvolvimento simbólico e o pensamento infantil circularam no ambiente em que Piaget formulava suas próprias teorias. Anos mais tarde, Piaget se tornaria o nome mais influente da psicologia do desenvolvimento infantil do século XX.
A analista que o ajudou a atravessar essa fase de formação raramente é mencionada quando sua obra é apresentada.
O silenciamento não foi um acidente
A trajetória de Spielrein depois de Genebra também merece registro. Em 1923, retornou à Rússia para contribuir com o desenvolvimento da psicanálise no país. O regime soviético, no entanto, passou a suprimir a psicanálise nas décadas seguintes, fechando o espaço em que ela poderia ter continuado seu trabalho.
Em agosto de 1942, durante a ocupação nazista de Rostov-on-Don, Spielrein e suas duas filhas, Renata e Eva, foram assassinadas por um esquadrão da SS, junto com milhares de outros judeus da cidade, no massacre de Zmievskaya Balka. Seu nome e sua obra permaneceram praticamente esquecidos pelas quatro décadas seguintes.
A descoberta que devolveu Spielrein à história
Em 1977, diários e cartas de Spielrein foram encontrados no porão do antigo Instituto Rousseau, em Genebra, onde ela os havia deixado ao partir para a Rússia. Esse material reacendeu o interesse por sua obra e permitiu reconstruir, com mais precisão, o alcance real de suas contribuições.
Hoje, Sabina Spielrein é reconhecida como uma das mentes mais originais da primeira geração da psicanálise. Não como nota de rodapé de Jung ou de Freud, mas como autora de ideias que ajudaram a formar os fundamentos da teoria das pulsões e da psicanálise infantil.
Para quem quer entender as raízes do pensamento psicológico além dos nomes mais celebrados, essa é uma história essencial. A newsletter Fundamentos da Psicologia sustenta a história da psicologia.
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