A Via Régia
Fundamentos da Psicologia
Gustavo Sanches
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Por que Freud chamou o sonho de estrada principal até o inconsciente, e o que Jung viu quando olhou pela mesma porta.

A frase e a porta que ela abriu
No finalzinho de 1899, com a data de 1900 já estampada na folha de rosto por decisão do editor, Sigmund Freud publicou A Interpretação dos Sonhos, o livro que ele consideraria, até o fim da vida, sua obra mais importante. A primeira tiragem, de poucas centenas de exemplares, levou cerca de oito anos para se esgotar. O século que aprenderia a falar de inconsciente, recalque e desejo recebeu sua certidão de nascimento com quase total indiferença.
A frase que sintetiza o projeto é conhecida: a interpretação dos sonhos é a via régia para o conhecimento das atividades inconscientes da mente. O termo é deliberado. A via régia era, na cidade antiga, a estrada principal que conduzia ao centro. Freud está dizendo que, entre todos os caminhos até o que há de mais velado no psiquismo, o sonho é o mais direto. Não o único, mas o mais curto. E a razão é simples: é durante o sono que a vigilância se afrouxa.
O que o livro propõe: o sonho como realização de desejo
A tese central de Freud é mais radical do que a fama popular do livro sugere. O sonho não é apenas uma janela para o inconsciente; é uma produção com função e gramática próprias. E sua função, sustenta Freud, é a realização de um desejo, quase sempre um desejo recalcado, inadmissível para a consciência desperta.
Para sustentar isso diante da evidência de que a maioria dos sonhos não se parece em nada com a satisfação de um desejo, Freud introduz a distinção que estrutura todo o livro: a do conteúdo manifesto e do conteúdo latente. O conteúdo manifesto é o sonho tal como o lembramos, a cena absurda e fragmentária. O conteúdo latente são os pensamentos oníricos ocultos, o material recalcado que o sonho exprime de forma cifrada. Interpretar é percorrer o caminho de volta, do manifesto ao latente.
“O sonho é a realização (disfarçada) de um desejo (recalcado).” — Sigmund Freud, A Interpretação dos Sonhos
A razão do disfarce é uma instância que Freud chama de censura. Há desejos que não podem chegar à consciência sem provocar angústia; a censura os deixa passar apenas mascarados. Daí o caráter enigmático dos sonhos: não são desordem, são desejo vestido para escapar do guarda. E é por isso, acrescenta Freud numa formulação que muitos esquecem, que os sonhos são os guardiães do sono, e não seus perturbadores: ao dar vazão disfarçada ao que de outro modo nos despertaria, eles preservam o repouso.
A oficina do sonho
O mecanismo que converte o desejo latente em cena manifesta Freud chamou de trabalho do sonho, e descrevê-lo foi sua contribuição técnica mais original. Quatro operações o compõem. A condensação comprime vários pensamentos numa única imagem, de modo que uma figura onírica pode reunir traços de várias pessoas. O deslocamento transfere a carga afetiva do elemento importante para um detalhe trivial, despistando a censura. A consideração à representabilidade traduz pensamentos abstratos em imagens visuais, porque o sonho pensa por imagens, não por proposições. E a elaboração secundária impõe, no momento do despertar, um verniz de coerência narrativa àquilo que era descontínuo.
Convém desfazer aqui um mal-entendido tenaz.
Freud não propôs um dicionário de símbolos no qual cada imagem teria significado fixo, embora as seções sobre simbolismo, ampliadas a cada edição, tenham alimentado essa leitura. O coração do método é a associação livre: é o sonhador, associando livremente a partir de cada fragmento do próprio sonho, quem fornece o material da interpretação. O sentido não está num código universal; está na história singular de quem sonhou. O sonho-modelo da própria obra, a célebre “injeção de Irma”, que Freud analisou em julho de 1895 e sobre o qual brincou que mereceria uma placa comemorativa, é exatamente uma demonstração desse trabalho associativo aplicado a si mesmo.
A ruptura: Jung e o sonho que não disfarça
Por mais de uma década, Carl Gustav Jung foi o herdeiro designado do movimento psicanalítico. O rompimento, consumado por volta de 1913, foi teórico antes de ser pessoal, e poucos temas expõem a divergência com mais clareza do que o sonho.
Jung recusou o pressuposto fundamental de Freud, o do disfarce. Para ele, o sonho não esconde, não mascara, não engana. Se nos parece obscuro, é porque desaprendemos a língua em que ele fala, não porque ele queira nos iludir. O sonho diz exatamente o que tem a dizer, em linguagem simbólica.
“O sonho é uma autorrepresentação espontânea, em forma simbólica, da situação atual do inconsciente.” — C. G. Jung
Dessa inversão decorre tudo o mais.
Onde Freud via realização de desejo, Jung viu compensação: o sonho corrige e equilibra a atitude unilateral da consciência, funcionando como um regulador automático da psique.
Onde Freud olhava para trás, em busca da causa recalcada, Jung admitiu também uma função prospectiva, antecipatória: o sonho pode esboçar um desenvolvimento ainda por vir.
E onde Freud encerrava o sentido na biografia do indivíduo, Jung abriu o sonho ao inconsciente coletivo, os “grandes sonhos”, carregados de motivos arquetípicos que reaparecem nos mitos de povos que jamais se encontraram.
Mudou até o método. No lugar da associação livre, que a seu ver afastava progressivamente da imagem, Jung propôs a amplificação: cercar o símbolo onírico de paralelos culturais, religiosos e mitológicos, em vez de se distanciar dele. Sua instrução clínica era a de permanecer junto à imagem.
Dois mapas do mesmo território
Vale resistir à tentação de escolher um lado cedo demais, porque Freud e Jung são mais úteis como par do que isoladamente. Eles desenharam dois mapas do mesmo território, e cada um lê o que o outro tende a não ver.
Freud é causal e redutivo: o sonho remete a um passado recalcado, e interpretá-lo é decifrar um disfarce.
Jung é teleológico e simbólico: o sonho aponta para um equilíbrio a alcançar, e interpretá-lo é escutar uma revelação. Um suspeita da imagem e busca o que ela esconde; o outro confia na imagem e busca o que ela mostra. Um ancora o sentido na história pessoal; o outro o estende ao patrimônio simbólico da espécie.
Para a clínica, a diferença é prática: muda o que se procura, muda o que se pergunta ao paciente, muda o que conta como uma boa interpretação.
O que a neurociência fez com o sonho
Quando o sonho deixou o divã e entrou no laboratório, o debate ganhou um terceiro interlocutor. A descoberta do sono REM por Aserinsky e Kleitman, em 1953, deu pela primeira vez um correlato fisiológico mensurável ao sonhar. E em 1977, com a hipótese de ativação-síntese, J. Allan Hobson e Robert McCarley desferiram o golpe mais duro contra Freud: os sonhos, propuseram, nascem de descargas mais ou menos aleatórias do tronco encefálico durante o REM, que o córtex se esforça por costurar numa narrativa. Não haveria desejo disfarçado, nem censura, nem mensagem; apenas um cérebro tentando dar sentido a ruído. O sonho seria, no limite, um subproduto sem autor.
A história, porém, não terminou aí.
A partir dos anos 1990, Mark Solms, à frente da chamada neuropsicanálise, mostrou que o sonhar pode ocorrer fora do REM e que depende de circuitos do prosencéfalo ligados à motivação, o sistema dopaminérgico de “busca”. Sua conclusão foi provocadora: ao localizar a origem do sonho num sistema motivacional, a neurociência reabilitava, em vocabulário próprio, a velha intuição freudiana de que o sonho é movido por um impulso, por algo da ordem do desejo. Em paralelo, outras hipóteses ocuparam o campo: a consolidação da memória durante o sono, a simulação de ameaças proposta por Revonsuo como ensaio evolutivo, a continuidade entre o sonho e as preocupações da vigília documentada nas análises de conteúdo de Domhoff. Curiosamente, esta última, ao descrever sonhos que refletem de modo bastante transparente as preocupações do sonhador, dá razão menos a Freud do que a Jung.
O que o tempo confirmou e o que expôs
Toda leitura honesta exige distinguir o que se sustentou do que ruiu. Confirmou-se, e amplamente, a premissa mais geral:
a de que a vida mental é em grande parte não consciente, hoje um lugar-comum das ciências cognitivas, ainda que o “inconsciente cognitivo” da pesquisa contemporânea não seja o inconsciente dinâmico e recalcado de Freud.
Confirmou-se também que os sonhos se ligam às preocupações emocionais da vigília, e a hipótese motivacional de Solms devolveu dignidade científica à ideia de que o sonhar tem um motor afetivo.
O que o tempo expôs é considerável.
A tese forte da realização de desejo não resiste aos sonhos traumáticos e aos pesadelos repetitivos, dificuldade que o próprio Freud reconheceu, em 1920, ao tropeçar na compulsão à repetição. O aparato de censura e disfarce carece de suporte empírico, e boa parte da pesquisa atual vê o sonho como bem mais transparente do que Freud supunha. O método interpretativo, por sua vez, é dificílimo de validar e sempre exposto ao risco da superinterpretação. Não por acaso, foi a psicanálise que Karl Popper elegeu como exemplo de teoria infalsificável. As objeções a Jung correm em paralelo: o inconsciente coletivo e os arquétipos, imensamente férteis na cultura, permanecem empiricamente esquivos, e os “grandes sonhos” arquetípicos resistem a qualquer teste.
Nada disso anula a contribuição; torna-a mais complexa, que é coisa diferente e mais honesta.
Freud e Jung viram, com clareza incomum, que o sonho importa, e construíram em torno dele os primeiros mapas sistemáticos da vida psíquica profunda.
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