A Hierarquia que Ninguém Desenhou

Gustavo Sanches

O que Maslow realmente disse sobre as necessidades humanas, o que seus críticos perceberam e por que a pirâmide sobreviveu a todos eles.

O triângulo que Maslow não criou

Existe uma ironia silenciosa na história da psicologia humanista.

A imagem mais reproduzida de toda a área, o triângulo em camadas que aparece em livros didáticos, apresentações corporativas e feeds de Instagram ao redor do mundo, nunca foi desenhada por Abraham Maslow. Ele descreveu uma hierarquia de necessidades humanas em um artigo publicado em 1943 no Psychological Review, mas a representação visual em pirâmide foi uma criação posterior de outros autores ao interpretar sua teoria. Maslow falava de níveis, de camadas, de uma organização de motivações. A pirâmide foi o mundo tentando dar forma àquilo que ele havia apenas descrito em palavras.

Essa distinção não é apenas uma curiosidade histórica. Ela aponta para algo mais profundo: a teoria de Maslow foi tão poderosa que gerou uma iconografia própria, independente do autor. E, ao longo das décadas seguintes, ela gerou também um debate igualmente poderoso, com concordâncias, revisões e críticas que ajudaram a refinar e a complexificar o que ele havia proposto. Compreender essa trajetória é compreender não apenas Maslow, mas o próprio esforço da psicologia em mapear o que move o ser humano.

O homem que estudava o que funcionava

Abraham Maslow nasceu em 1908 no Brooklyn, filho de imigrantes russos. Sua trajetória acadêmica passou pelo behaviorismo antes de se distanciar radicalmente dele. O que o incomodava na psicologia dominante de sua época era o foco quase exclusivo no adoecimento, na patologia, no que estava quebrado. Maslow queria entender o outro lado: o que tornava certas pessoas extraordinariamente realizadas, criativas, plenas. Ele escolheu estudar não os doentes, mas os exemplares.

Foi com esse método incomum que Maslow construiu o conceito de autorrealização. Ele selecionou figuras que considerava plenamente desenvolvidas, entre elas Abraham Lincoln, Albert Einstein, Eleanor Roosevelt e o filósofo Baruch Spinoza, e buscou identificar características comuns. O que encontrou foi um conjunto de traços que incluía aceitação da realidade, espontaneidade, profundidade nas relações interpessoais, senso de humor filosófico, criatividade e uma orientação ética consistente. A partir desse mapeamento, construiu a hierarquia não como uma teoria abstrata, mas como um modelo empírico extraído de vidas reais.

A hierarquia propõe que as motivações humanas se organizam em uma estrutura de cinco níveis. Na base, as necessidades fisiológicas: alimentação, água, sono, temperatura, as condições mínimas para que o organismo continue funcionando. No segundo nível, a segurança: a busca por estabilidade, proteção e ordem no ambiente. No terceiro, pertencimento e amor: amizade, família, intimidade, o senso de fazer parte de algo. No quarto, estima: tanto o reconhecimento externo quanto, em sua forma mais elevada, o autorrespeito e a confiança nas próprias capacidades. No topo, a autorrealização: o uso pleno do potencial, a expressão mais completa daquilo que o indivíduo pode ser.

A lógica subjacente é clara: as necessidades mais básicas exercem uma pressão mais urgente sobre o comportamento. Uma pessoa com fome não tem energia psíquica disponível para criar ou buscar propósito. Um ambiente percebido como ameaçador mantém a mente em estado de alerta permanente, bloqueando o acesso aos níveis superiores. Maslow nunca afirmou que era preciso satisfazer completamente um nível para que o seguinte emergisse, mas reconhecia que a privação prolongada nas bases compromete profundamente o desenvolvimento humano.

Carl Rogers e a convergência humanista

Maslow não estava sozinho nessa virada. Carl Rogers, seu contemporâneo e uma das figuras mais influentes da psicologia do século XX, chegava a conclusões semelhantes por um caminho diferente. Rogers desenvolveu a abordagem centrada na pessoa a partir de sua prática clínica, e no centro de sua teoria estava o conceito de tendência atualizante: uma propensão inata de todo organismo vivo em direção ao crescimento, ao desenvolvimento e à realização do próprio potencial.

A convergência entre os dois era profunda o suficiente para que, juntos, se tornassem os pilares da psicologia humanista, a chamada terceira força da psicologia, em contraposição ao behaviorismo e à psicanálise freudiana. Para Rogers, a autorrealização não era um topo a ser alcançado, mas um processo contínuo. O que ele chamava de “pessoa em pleno funcionamento” não era alguém que havia chegado a algum destino, mas alguém comprometido com a abertura à experiência, a vivê-la com autenticidade e sem rigidez defensiva.

A diferença relevante entre os dois está na ênfase: Maslow pensava a autorrealização como uma capacidade que se desenvolve quando as necessidades anteriores estão suficientemente supridas. Rogers acreditava que a tendência atualizante estava sempre presente, mesmo em ambientes adversos, e que o papel do terapeuta era criar as condições para que ela emergisse. Ambos viam o ser humano como orientado ao crescimento. Discordavam sobre o quanto o ambiente precisava cooperar para que esse crescimento acontecesse.

Viktor Frankl e a necessidade que Maslow subestimou

A crítica mais significativa à estrutura da hierarquia veio de Viktor Frankl, psiquiatra austríaco e sobrevivente de campos de concentração nazistas. Frankl desenvolveu a logoterapia com base em uma observação que contrariava diretamente a lógica de Maslow: nos campos, onde as necessidades fisiológicas e de segurança eram negadas de forma sistemática e brutal, havia pessoas que encontravam sentido, que mantinham dignidade e que sobreviviam psiquicamente não porque suas necessidades básicas estavam satisfeitas, mas porque tinham um porquê.

Para Frankl, a vontade de sentido não era um luxo do topo da pirâmide. Era uma necessidade primária, tão fundamental quanto a comida e a segurança. Em situações extremas, podia se revelar até mais urgente. Sua obra-chave, “Em Busca de Sentido”, publicada em 1946, tornava esse argumento irrefutável pelo simples peso do testemunho: ele havia visto isso acontecer, havia vivido isso.

A crítica de Frankl não destruía a hierarquia de Maslow, mas a complexificava. Ela mostrava que a relação entre necessidades não era tão linear quanto o modelo sugeria, e que o sentido podia funcionar como uma ancora psíquica capaz de sustentar o ser humano mesmo quando as bases da pirâmide haviam sido arrancadas.

A crítica cultural e o problema do universalismo

Uma das objeções mais consistentes que a teoria de Maslow recebeu ao longo das décadas seguintes veio da psicologia intercultural. O psicólogo holandês Geert Hofstede, conhecido por seus estudos sobre as dimensões culturais que moldam o comportamento humano, apontou que a hierarquia de Maslow refletia valores específicos de culturas ocidentais, individualistas e de alto poder aquisitivo. Em culturas coletivistas, o pertencimento e a harmonia com o grupo não são uma necessidade intermediária: são uma condição básica de existência que precede, e muitas vezes supera, a busca por realização individual.

Estudos comparativos realizados em diferentes países confirmaram que a ordenação das necessidades varia conforme o contexto cultural. Em sociedades onde a identidade é fundamentalmente coletiva, o indivíduo não busca primeiro sua segurança pessoal e depois a conexão com outros. A conexão já é segurança. A pirâmide, nesses casos, teria outra forma, outra sequência.

Essa crítica não invalida a teoria, mas localiza seus limites. Maslow construiu sua hierarquia a partir de uma amostra específica: figuras ocidentais, majoritariamente brancas, do século XX. O alcance universal que ele reivindicava para o modelo exigiria uma base muito mais ampla do que ele tinha disponível.

Wahba, Bridwell e a pergunta pelo rigor

Em 1976, os pesquisadores Mahmoud Wahba e Lawrence Bridwell publicaram uma revisão sistemática dos estudos empíricos que haviam tentado validar a hierarquia de Maslow. A conclusão foi incômoda: havia pouca evidência científica sólida para sustentar a existência dos cinco níveis como categorias distintas, ou para confirmar que a satisfação de um nível ativava sistematicamente a motivação pelo seguinte.

Isso não significava que a teoria estava errada. Significava que ela era difícil de testar. As necessidades humanas são dinâmicas, subjetivas e profundamente influenciadas pelo contexto. Isolar variáveis e medir motivação em laboratório sem perder o que é essencial no fenômeno é um problema metodológico que persiste até hoje. Maslow havia construído um modelo clínico e filosófico, não um protocolo experimental, e exigi-lo que se comportasse como tal era, em certa medida, cobrar dele o que não era sua intenção oferecer.

Deci, Ryan e a confirmação pelo caminho empírico

A reabilitação parcial de Maslow veio de onde talvez ele menos esperasse: da psicologia experimental. Edward Deci e Richard Ryan desenvolveram a Teoria da Autodeterminação a partir dos anos 1970, construindo uma base empírica rigorosa para a ideia de que os seres humanos possuem necessidades psicológicas inatas. Eles identificaram três: autonomia, o sentimento de agir a partir de escolhas próprias; competência, a percepção de eficácia na interação com o ambiente; e pertencimento, a necessidade de vínculos genuínos com outros.

A convergência com Maslow é evidente, embora Deci e Ryan não organizem essas necessidades em hierarquia. Para eles, as três são igualmente fundamentais e precisam ser satisfeitas de forma simultânea para que o bem-estar psicológico se sustente. Décadas de pesquisa intercultural realizadas por eles e seus colaboradores confirmaram que essas necessidades aparecem de forma consistente em diferentes culturas, apoiando a intuição original de Maslow de que existe algo universal na motivação humana, ainda que a estrutura hierárquica rígida permaneça questionável.

A autotranscendência e o legado inacabado

Nos anos finais de sua vida, Maslow percebeu que a autorrealização não era o topo definitivo da experiência humana. Havia algo além: aquele estado em que o indivíduo vai além de si mesmo, dedicando-se a algo que o ultrapassa. Altruísmo, espiritualidade, comprometimento com a justiça, experiências de pico que dissolvem as fronteiras do ego. Ele chamou esse nível de autotranscendência.

Maslow morreu em 1970, antes de reformular oficialmente a hierarquia. O conceito foi publicado postumamente em “The Farther Reaches of Human Nature” (1971) e permaneceu durante décadas como um apêndice não oficial da teoria. Décadas depois, a psicologia transpessoal, da qual Maslow foi um dos fundadores ao lado de Stanislav Grof e Anthony Sutich, abraçou esse conceito como o núcleo de uma psicologia que incluía as experiências transcendentes como dados legítimos da condição humana, e não como desvios ou ilusões.

A autotranscendência de Maslow e a vontade de sentido de Frankl apontavam para a mesma direção: o ser humano não é apenas um organismo que busca satisfazer necessidades. É um ser que busca ultrapassar a si mesmo.

O que sobreviveu

A pirâmide que Maslow não desenhou sobreviveu a décadas de críticas, revisões e tentativas de refutação. Não sobreviveu intacta: a rigidez hierárquica foi questionada, o universalismo foi relativizado, a base empírica foi exigida e parcialmente encontrada em outros modelos. Mas o núcleo resistiu.

Resistiu porque Maslow havia capturado algo real. A intuição de que existe uma organização nas motivações humanas, de que a privação nas bases compromete o desenvolvimento, de que o ser humano tem uma tendência inata ao crescimento e que essa tendência, quando encontra as condições mínimas, não para até chegar ao limite do que é possível ser: essa ideia permanece viva, discutida e útil, na clínica, na educação, na gestão e em qualquer campo que se interesse pelo que move as pessoas.

“O que um homem pode ser, ele deve ser.” A frase de Maslow é uma afirmação sobre a natureza humana. Não uma promessa, não um conselho. Uma constatação: existe em cada pessoa uma pressão interna em direção à sua forma mais completa. A teoria inteira foi, em certa medida, uma tentativa de mapear o que precisa acontecer para que essa pressão encontre caminho.

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