A Coragem de Contribuir

Gustavo Sanches

Alfred Adler rompeu com Freud para mostrar que a saída do sofrimento aponta sempre na direção do outro.

Uma frase que inverte o problema

Há frases que resumem uma obra inteira, e Alfred Adler escreveu uma delas. O indivíduo que não se interessa por seus semelhantes, dizia ele, é o que enfrenta as maiores dificuldades na vida e causa os maiores danos aos outros, e é entre essas pessoas que surgem todos os fracassos humanos. A afirmação é forte, quase severa, e inverte o modo como costumamos pensar o sofrimento. Não somos infelizes apenas por feridas do passado ou por desejos reprimidos; somos infelizes, sustentava Adler, na medida em que nos fechamos diante dos outros.

Por trás dessa sentença está um dos pensamentos mais originais e mais subestimados da história da psicologia. Adler construiu uma teoria inteira sobre a ideia de que o ser humano é, antes de tudo, um ser social, e que a saúde psíquica se mede pela qualidade do nosso vínculo com os semelhantes. Entender essa frase é entender o coração da Psicologia Individual.

O homem que rompeu com Freud

Alfred Adler nasceu em Viena em 1870 e foi um dos primeiros nomes de peso a romper com Sigmund Freud, de cujo círculo chegou a ser figura central antes de se afastar, em 1911\. A ruptura foi teórica. Adler não aceitava que a sexualidade fosse o motor único da vida psíquica, e propôs em seu lugar uma visão na qual o que move o ser humano é a luta para superar um sentimento de pequenez diante do mundo, sempre dentro de um contexto social.

Ele chamou sua abordagem de Psicologia Individual, e aqui mora um mal-entendido frequente. O termo não vem da palavra que designa o egoísmo, e sim do latim individuum, o indivisível. Para Adler, a pessoa deve ser compreendida como um todo unitário e indivisível, e não fragmentada em instâncias em conflito. Onde Freud olhava para trás, em busca das causas no passado, Adler olhava para a frente: o comportamento humano é puxado por metas, orientado a um fim, e cada pessoa age em função de um objetivo, muitas vezes não consciente, que dá unidade a tudo o que faz.

A ferida original: o sentimento de inferioridade

O ponto de partida de Adler é uma observação simples e universal. Todo ser humano começa a vida pequeno, dependente e incapaz, cercado de adultos que tudo podem. Dessa condição nasce um sentimento de inferioridade que, longe de ser patológico, é a mola propulsora do desenvolvimento.

“Ser humano significa sentir-se inferior.” — Alfred Adler

A frase não é pessimista. Para Adler, é justamente esse sentimento que nos impulsiona a crescer, a aprender, a dominar o mundo, num movimento que ele descreveu como a passagem de uma posição de menos para uma de mais, uma busca por superação e significado. O problema não está no sentimento de inferioridade, mas no que se faz com ele. Quando a pessoa fica esmagada por ele, instala-se o que Adler chamou de complexo de inferioridade; e quando tenta compensá-lo buscando superioridade sobre os outros, em vez de junto com eles, nasce uma forma de viver que adoece a si mesma e fere quem está ao redor.

O remédio: o interesse social

É aqui que entra o conceito mais importante da obra de Adler, aquele que ele colocou no centro de tudo: o interesse social, ou sentimento de comunidade. Trata-se da nossa capacidade de cooperar, de nos sentirmos parte de um todo maior e de contribuir para o bem comum. Adler chegou a fazer dele o critério mesmo da saúde mental: quanto mais desenvolvido o interesse social de uma pessoa, mais bem preparada ela está para a vida; quanto mais ela se fecha em si, mais sofre.

A razão é prática, e a frase que abre este artigo a resume. Para Adler, os três grandes problemas da existência, que ele chamou de tarefas vitais, são o trabalho, a amizade e o amor. E os três têm uma coisa em comum: nenhum se resolve sozinho. Todos exigem o outro. Quem não cultiva interesse pelos semelhantes fica desarmado diante dessas tarefas, porque tenta resolver de forma solitária aquilo que é, por natureza, coletivo. O fracasso, nessa leitura, não é falta de talento nem de força de vontade; é a tentativa de viver contra a própria condição social do ser humano. A diferença decisiva é de direção: há quem se esforce para subir acima dos outros, e há quem se esforce para construir com eles, e só o segundo movimento conduz ao bem-estar.

Uma psicologia da coragem

Cada pessoa, segundo Adler, desenvolve cedo na vida um modo próprio e singular de enfrentar a inferioridade e perseguir suas metas, um padrão que ele chamou de estilo de vida. Esse estilo é, em larga medida, uma criação do próprio sujeito, e não um destino imposto, o que confere à teoria adleriana um traço profundamente esperançoso: se a pessoa construiu seu modo de viver, ela também pode reconstruí-lo.

Daí decorre o método. Para Adler, na raiz do adoecimento está quase sempre o desânimo, a perda da coragem de se lançar às tarefas da vida. E o caminho de volta é o que ele chamou de encorajamento, o trabalho de devolver à pessoa o senso de pertencimento e a coragem de contribuir. Por isso ele acreditava que o interesse social pode ser aprendido, sobretudo na infância, e cultivado ao longo de toda a vida. Não foi por acaso que Adler dedicou enorme energia à educação e à prevenção, fundando em Viena algumas das primeiras clínicas de orientação infantil e levando a psicologia para professores, pais e pessoas comuns. Ele queria uma psicologia democrática, acessível, capaz de formar seres humanos cooperativos antes que o sofrimento se instalasse.

O que o tempo confirmou e o que expôs

Toda leitura honesta de Adler exige separar o que a pesquisa confirmou do que ela expôs. E a intuição central dele envelheceu notavelmente bem. A ciência contemporânea documenta de modo robusto que a necessidade de pertencer é uma motivação humana fundamental, e que a qualidade dos vínculos sociais é um dos mais fortes preditores de saúde física e mental, ao passo que a solidão funciona como verdadeiro fator de risco. A teoria da autodeterminação, uma das mais influentes da psicologia atual, coloca a vinculação ao lado da autonomia e da competência como necessidade psicológica básica. Em outras palavras, aquilo que Adler chamou de interesse social a pesquisa redescobriu sob outros nomes.

Sua influência, ainda que pouco creditada, é imensa. Maslow afirmou tornar-se cada vez mais adleriano com o passar dos anos; Albert Ellis reconheceu nele um precursor das terapias cognitivas, pela ênfase no modo como cada um interpreta a vida; e a psicologia positiva, com seu foco em forças, coragem e contribuição, caminha em terreno que Adler abriu.

O que o tempo expôs é mais pontual. Algumas de suas noções, como o sentimento de comunidade e o estilo de vida, são difíceis de operacionalizar e medir. E uma de suas ideias mais populares, a de que a ordem de nascimento molda a personalidade, não resistiu aos grandes estudos contemporâneos, que praticamente não encontraram efeitos consistentes. Nada disso anula a contribuição; apenas a torna mais precisa, que é coisa diferente e mais honesta.

Por que ler Adler hoje

Resta a pergunta que todo defensor honesto desta obra precisa enfrentar. Por que voltar a um psiquiatra vienense morto em 1937, num tempo tão distinto do dele?

Porque talvez nenhuma época tenha precisado tanto do diagnóstico de Adler quanto a nossa. Vivemos uma cultura que exalta a realização individual, a performance e a autossuficiência, cercados de telas que prometem conexão e frequentemente entregam comparação e isolamento. A solidão tornou-se tema de saúde pública, e o sofrimento de quem tenta resolver sozinho aquilo que é coletivo nunca foi tão visível. Não por acaso, as ideias de Adler voltaram ao centro do debate popular em anos recentes, embaladas por best-sellers que reapresentaram sua psicologia a uma nova geração.

A mensagem dele permanece exata e, à sua maneira, consoladora. O que adoece, dizia Adler, é a vida fechada em si mesma, e o caminho de saída está sempre na direção do outro. Num mundo que insiste em nos convencer de que a felicidade é uma conquista solitária, talvez a coisa mais radical que se possa lembrar é que ninguém se cura sozinho, e que contribuir, pertencer e cooperar não são gestos ingênuos, mas a forma mais madura de coragem e de pertencimento.

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