Os Três Caminhos para o Sentido
Gustavo Sanches
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Viktor Frankl sobreviveu a quatro campos de concentração e voltou com uma resposta para a pergunta que mais nos assombra: onde encontrar sentido?

A pergunta de quem sobreviveu
Num programa de televisão, já com mais de setenta anos, Viktor Frankl ouve de um repórter a pergunta mais simples e mais difícil que existe.
Você diz que eu ainda posso encontrar sentido na minha vida, e que é importante encontrá-lo. Mas onde? Como?
A pergunta é nossa, de todos nós, e tem um peso particular quando feita a esse homem em especial, porque poucos tiveram tantos motivos para concluir que a vida não tem sentido algum, e ainda assim não concluíram.
Frankl falava como sobrevivente. Carregava as marcas de quatro campos de concentração e o luto pela esposa, pelos pais e pelo irmão, mortos pelo regime nazista. Convém, porém, desfazer um mal-entendido comum: sua teoria não nasceu dentro dos campos. Ela já estava formulada antes da guerra. O cativeiro foi a prova mais extrema a que uma teoria sobre o sentido da vida poderia ser submetida, e ela sobreviveu junto com ele. Foi por isso que ele pôde responder ao repórter com a serenidade de quem testou suas próprias palavras no pior laboratório imaginável:
Existem três caminhos principais que levam à realização de sentido.
A vontade de sentido
Para entender os três caminhos, é preciso entender a aposta que os sustenta. Frankl fundou a logoterapia, frequentemente chamada de terceira escola vienense de psicoterapia, depois da psicanálise de Freud e da psicologia individual de Adler, com quem ele havia convivido na juventude antes de seguir caminho próprio. A divergência era sobre o motor da vida psíquica. Onde Freud via uma vontade de prazer e Adler uma vontade de poder, Frankl via algo mais fundamental: uma vontade de sentido. O ser humano, dizia ele, é movido antes de tudo pela busca de uma razão para existir.
Quando essa busca fracassa, instala-se aquilo que Frankl chamou de vácuo existencial: a sensação difusa de vazio, tédio e falta de propósito que ele diagnosticou como a doença característica do homem moderno. Não é depressão no sentido clínico estrito, mas uma fome de significado que a abundância material não sacia. E é contra esse vazio que os três caminhos se oferecem como respostas concretas.
O primeiro caminho: criar e realizar
A primeira estrada é a dos valores criativos, e passa pelo que fazemos e oferecemos ao mundo. Encontramos sentido por meio do trabalho, da criação de uma obra, da realização de uma ação que deixa no mundo uma marca que não existiria sem nós.
Não se trata de produtividade no sentido contemporâneo, nem de sucesso mensurável. Trata-se de entrega, do gesto de pôr algo de si em uma tarefa que importa. É por isso que uma pessoa pode encontrar sentido profundo num ofício humilde e não encontrá-lo numa carreira brilhante: o que confere significado não é o tamanho da obra, mas o fato de ela ser uma resposta pessoal a uma demanda que a vida nos faz. Frankl insistia que o sentido não é inventado por nós, e sim descoberto no encontro entre o que somos e aquilo que o momento nos pede.
O segundo caminho: o amor
A segunda estrada é a dos valores experienciais, e passa por aquilo que recebemos do mundo, pela beleza, pela verdade, pela natureza e, acima de tudo, pelo amor. Foi nesse ponto que o repórter o interrompeu, e foi ali que Frankl deu uma de suas definições mais belas. Amar é apreender outra pessoa em sua singularidade, captar aquilo que a torna única e insubstituível.
“O amor é a única forma de apreender outro ser humano no mais profundo núcleo de sua personalidade.” — Viktor Frankl, Em Busca de Sentido
Há aqui uma distinção que Frankl fazia questão de marcar. O amor não se reduz ao sexo; ao contrário, o sexo propriamente humano é mais do que mero sexo na medida exata em que se torna a encarnação corporal do amor, um modo físico de exprimir uma união entre pessoas. O que distingue o amor de tudo o mais é essa capacidade de ver o outro não como um exemplar entre tantos, mas como este ser irrepetível, e de enxergar nele não só o que ele é, mas o que ele ainda pode vir a ser.
Essa não era teoria abstrata. No campo, em meio ao frio e à exaustão, Frankl conta ter convocado mentalmente a imagem da esposa e compreendido, naquele instante, uma verdade que mudaria sua vida: a de que a salvação do homem se dá através do amor e no amor. Quando nada mais lhe restava, restava ainda a possibilidade de amar, mesmo que apenas na lembrança de quem amava.
O terceiro caminho: o que o vídeo não mostrou
O clipe se encerra na definição de amor, mas Frankl havia anunciado três caminhos, e o terceiro é o mais importante de todos, porque é o que nasceu diretamente das cinzas. É a estrada dos valores atitudinais, e ela responde à pergunta que as duas primeiras deixam em aberto: e quando não se pode mais criar nem amar? E quando a vida nos coloca diante de um sofrimento que não há como evitar nem mudar?
A resposta de Frankl é a sua contribuição mais original. Mesmo numa situação irremediável, diante de um destino que não se pode alterar, resta ao ser humano uma liberdade que ninguém lhe pode tirar: a de escolher como vai enfrentá-lo.
“A tudo se pode tirar a um homem, menos uma coisa: a última das liberdades humanas, a de escolher a sua atitude diante de qualquer circunstância.” — Viktor Frankl, Em Busca de Sentido
Quando não podemos mudar uma situação, ele dizia, somos desafiados a mudar a nós mesmos. O sofrimento que não pode ser evitado deixa de ser mera dor no instante em que encontra um sentido, e o modo como uma pessoa carrega seu fardo pode se tornar uma conquista interior, um testemunho. Frankl chamava isso de otimismo trágico: a capacidade de dizer sim à vida apesar da dor, da culpa e da morte. E gostava de lembrar a frase de Nietzsche que resume toda a logoterapia: quem tem um porquê para viver suporta quase qualquer como.
O que a pesquisa diz
Toda leitura honesta exige situar a logoterapia diante da evidência. Por muito tempo, ela foi vista mais como uma filosofia de vida do que como uma terapia mensurável, e parte dessa crítica permanece justa: vários de seus conceitos são difíceis de operacionalizar, e o tom por vezes prescritivo afasta quem busca neutralidade clínica.
Mas a intuição central de Frankl tem resistido bem ao teste do tempo. A pesquisa contemporânea sobre o sentido na vida confirma de modo consistente que a percepção de propósito está associada a maior bem-estar, a maior resiliência diante da adversidade e até a melhores desfechos de saúde. Abordagens herdeiras diretas de Frankl, como a psicoterapia centrada no sentido desenvolvida para pacientes com câncer avançado, mostraram eficácia em estudos controlados. O homem que formulou sua teoria contra o ceticismo de seu tempo vê hoje suas hipóteses parcialmente vindicadas pelos métodos que então lhe faltavam.
O salto transpessoal: quando o sentido aponta para o alto
Há um ponto em que a logoterapia toca algo que a ultrapassa, e é justamente aí que Frankl se aproxima daquilo que viria a se chamar psicologia transpessoal. Para ele, o ser humano não se esgota nas dimensões biológica e psicológica; existe nele uma dimensão propriamente espiritual, a que chamou de noética, sede da liberdade, da consciência moral e da capacidade de buscar sentido. E o motor dessa dimensão é a autotranscendência: a constatação de que o humano só se realiza quando se volta para fora de si, em direção a uma causa, a uma pessoa ou a algo maior do que ele próprio.
Frankl foi mais longe do que costumam lembrar. Em A Presença Ignorada de Deus, propôs a existência de um inconsciente espiritual, uma religiosidade latente no fundo de cada pessoa, e falou de um sentido último, um supra-sentido que excede a compreensão humana e se abre para o transcendente. Aqui ele parou no limiar, respeitando a liberdade de cada um para nomear, ou não, esse horizonte. Mas a porta ficou aberta, e por ela passariam tanto a psicologia transpessoal de Maslow e seus sucessores quanto as tradições espirituais que sempre souberam que o sentido último da vida não cabe apenas no indivíduo.
É nesse exato ponto que uma voz de linha transpessoal e espiritualista completa o gesto que Frankl deixou em suspenso. Joanna de Ângelis retoma a mesma intuição, a de que a tarefa central da existência é descobrir o seu sentido, e a leva à sua conclusão explicitamente espiritual:
“A tua vida possui um alto significado. Descobrir o sentido da existência e para que te encontras aqui, eis a tua tarefa principal. Muitos indivíduos, por ignorância, colocam os objetivos que devem alcançar nas questões materiais e, ao consegui-los, ficam entediados, sofrendo frustrações e tão infelizes quanto aqueles que nada lograram. Se observas a questão espiritual da vida, a necessidade de te iluminares com o pensamento divino, toda a tua marcha se realizará segura e frutuosa. Ninguém pode sentir-se completado, se não estiver em constante ligação com Deus, a Fonte Geradora do Bem. Pensa nisso e segue o rumo da vida permanente.” — Joanna de Ângelis
Frankl resgatou a dignidade do sentido numa época que ele mesmo diagnosticou como marcada pelo vazio. E é difícil não notar como esse diagnóstico envelheceu bem. O vácuo existencial que ele descreveu há décadas parece ter se tornado, no nosso tempo de hiperconexão e desempenho permanente, quase uma condição ambiente. Cercados de estímulos, de telas e de metas, muitos sofrem menos por trauma do que por ausência de porquê.
É aí que os três caminhos voltam a falar conosco com urgência.
Frankl insistia que a felicidade não pode ser perseguida diretamente; ela apenas resulta, como efeito, de uma vida vivida em função de algo maior do que ela própria. Talvez seja essa a herança mais valiosa de um homem que perdeu quase tudo e, mesmo assim, encontrou na capacidade de amar e de dar sentido à dor a prova de que a vida, sob qualquer circunstância, ainda pode valer a pena.
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