O Espírito do Tempo
Fundamentos da Psicologia
Gustavo Sanches
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Como cada grande escola da psicologia nasceu, sem saber, como resposta às dores da sua época.

O fantasma da época
Há uma palavra alemã que descreve aquilo que nos cerca o tempo todo e que quase nunca enxergamos: Zeitgeist.
Ela reúne Zeit, tempo, e Geist, que significa ao mesmo tempo espírito e fantasma. A escolha é feliz, porque o espírito de uma época age justamente como um fantasma: ronda invisível, atravessa as paredes das instituições e das mentes, e determina o que se pode pensar, sentir e dizer sem que ninguém perceba sua presença. É o clima cultural, intelectual e moral que domina silenciosamente um tempo.
A tese deste artigo, herdada de uma longa tradição, é simples e desconfortável: nenhuma teoria nasce no vácuo. As grandes escolas da psicologia não brotaram apenas da mente de gênios isolados. Surgiram do encontro entre esses gênios e o ar que respiravam, e cada uma delas foi, no fundo, uma resposta às dores específicas de sua geração.
Quando o tempo está maduro
Foi Edwin Boring, em sua influente História da Psicologia Experimental, de 1929, quem trouxe o conceito de Zeitgeist, vindo do romantismo alemão de Herder e Goethe, para dentro da história da psicologia. Boring opôs duas explicações para o progresso científico. De um lado, a teoria do grande homem, segundo a qual a ciência avança pelos lampejos de indivíduos excepcionais. De outro, a tese do Zeitgeist, segundo a qual mesmo o gênio só é ouvido quando o tempo está maduro para recebê-lo.
A evidência a favor da segunda hipótese é mais forte do que se imagina.
O sociólogo Robert Merton documentou um fenômeno revelador, o das descobertas múltiplas: ideias formuladas de modo independente e quase simultâneo por pessoas que não se conheciam, como o cálculo por Newton e Leibniz, ou a seleção natural por Darwin e Wallace. Quando uma ideia está no ar, mais de uma cabeça a respira ao mesmo tempo. Isso não anula o gênio; apenas mostra que ele precisa de uma época disposta a escutá-lo. A psicologia, talvez mais que qualquer ciência, ilustra esse princípio, porque seu objeto é a própria mente que respira o ar da cultura.
A psicanálise e a era da repressão
No fim do século XIX, a Viena vitoriana vivia sob um moralismo rígido, feito de obediência, decoro e silêncio absoluto sobre o desejo, especialmente o desejo feminino. Era uma cultura que exigia que se calasse uma parte enorme da experiência humana. E o que não pode ser dito encontra outra via para se exprimir.
O sintoma característico da época foi a histeria, em que o corpo paralisava ou convulsionava aquilo que a boca tinha proibição de dizer. Diante desses corpos que falavam por enigmas, Sigmund Freud formulou a teoria do inconsciente, esse porão da mente onde os desejos reprimidos continuam pulsando, à espera de uma brecha. Não é coincidência que a teoria da repressão tenha nascido na sociedade mais repressora. A psicanálise foi a resposta exata à dor de um tempo que adoecia de silêncio.
O behaviorismo e a era da máquina
Atravessado o Atlântico e virado o século, o espírito era outro. Os Estados Unidos viviam a euforia industrial, a linha de montagem, o culto à eficiência e ao pragmatismo. Valia o que podia ser medido, padronizado e produzido em escala. Uma cultura assim teria pouca paciência com porões invisíveis da alma.
A resposta veio à altura. John Watson, em seu manifesto de 1913, e mais tarde B. F. Skinner propuseram abandonar a consciência e o inconsciente, terrenos que não se deixam medir, para estudar apenas o comportamento observável: o que pode ser cronometrado, condicionado e modificado no ambiente. A mente virou uma caixa-preta, e o que importava era a relação entre o estímulo que entra e a resposta que sai. O behaviorismo foi a psicologia da era da máquina, construída à imagem da fábrica que o cercava.
A psicologia humanista e a contracultura
Os anos 1960 trouxeram um Zeitgeist em rebelião. No rastro de duas guerras, do movimento pelos direitos civis e da contestação radical das instituições, erguia-se um grito coletivo por paz, liberdade, autenticidade e sentido. A geração que desconfiava de toda autoridade não se reconhecia nem no determinismo do inconsciente nem no do condicionamento.
Carl Rogers e Abraham Maslow ofereceram a essa geração a chamada terceira força. Em vez de partir da doença, partiram do potencial; em vez do sintoma, da autorrealização; em vez do diagnóstico, da aceitação incondicional da pessoa. A psicologia humanista foi a tradução clínica da contracultura, a aposta de que o ser humano, livre das amarras, tende naturalmente ao crescimento. Era o espírito do tempo feito teoria.
A terapia cognitiva e a era da informação
Entre os anos 1960 e 1980, uma nova metáfora tomou conta da cultura: o computador. Pensar passou a ser descrito em termos de dados, processamento, entrada e saída, software. A mente humana ganhou um novo espelho na máquina que começava a povoar laboratórios e escritórios.
A psicologia acompanhou o giro. Aaron Beck, ao lado de Albert Ellis, formulou a terapia cognitiva, base da TCC, tratando a mente como um processador de informação. O sofrimento deixou de ser apenas pulsão reprimida e passou a ser também erro de leitura: crenças disfuncionais e pensamentos automáticos, falhas no processamento dos dados da realidade. Corrigir o programa passou a ser corrigir a dor. Mais uma vez, a teoria dominante falava a língua tecnológica de seu tempo.
O nosso Zeitgeist: a era da hiperconexão
Resta a pergunta mais difícil, porque é a única que ainda não podemos olhar de fora: qual é o espírito do nosso tempo, e que dor ele está produzindo?
Vivemos a era da hiperconexão. A cultura da performance, as redes sociais, o excesso de informação, a comparação ininterrupta e a pressa de não ficar para trás formam o ar que respiramos hoje.
Se na Viena de Freud a sociedade exigia silêncio moral absoluto e a mente adoecia pela repressão, a nossa exige produtividade constante e atenção fragmentada em múltiplas telas, e a mente adoece pelo excesso. O sintoma mudou de sinal. Onde antes havia o desejo sufocado, hoje há o sistema nervoso esgotado. As epidemias clínicas da nossa geração têm outros nomes: burnout, ansiedade generalizada, pânico, a sensação difusa de estar sempre devendo.
E a resposta, como toda resposta, está nascendo sob medida para essa dor. As terapias do trauma, com Bessel van der Kolk, Peter Levine e Stephen Porges, deslocaram a atenção da mente que pensa para o corpo que registra, propondo que o trauma vive nos tecidos e no sistema nervoso, não apenas nas ideias. O mindfulness e a chamada terceira onda da TCC trouxeram a presença e a aceitação para o centro, contra a dispersão crônica. E a psicologia integrativa busca costurar corpo, presença e regulação numa abordagem que responde à fragmentação com reconexão. Convém a honestidade de dizer que parte dessas respostas ainda está em construção e em debate; algumas de suas teses, como certas formulações da teoria polivagal, são promissoras mas ainda contestadas. É o que sempre acontece quando uma psicologia nasce: ela chega antes da prova, porque a dor não espera.
A linguagem que muda, a verdade que permanece
Há um risco e uma lição nessa história. O risco é a arrogância de achar que, desta vez, chegamos à verdade definitiva. A própria tese do Zeitgeist desfaz essa ilusão: se a repressão vitoriana parece hoje uma curiosidade datada, é provável que nossas certezas sobre regulação e trauma pareçam, daqui a um século, igualmente filhas de seu tempo. Toda época enxerga a mente pela lente que possui, e confunde a lente com o olho.
A lição talvez esteja na distinção que Carl Gustav Jung registrou em seu Livro Vermelho, entre o espírito mutável de cada época e algo mais fundo e permanente sob ele.
“O espírito da profundidade de tempos imemoriais e para todo o futuro possui um poder maior do que o espírito deste tempo, que muda com as gerações. (…) A verdade eterna precisa de uma linguagem humana que se altere com o espírito dos tempos.” — Carl Gustav Jung, O Livro Vermelho (Liber Novus), 1913–1930
É talvez a melhor síntese do que a história da psicologia ensina. As dores humanas mais profundas, o desejo, o medo, a busca de sentido, a necessidade de pertencer, talvez sejam as mesmas em todas as eras. O que muda é a linguagem com que cada tempo as nomeia e a forma com que as faz adoecer. Conhecer o Zeitgeist de cada escola não é colecionar teorias do passado. É aprender a reconhecer, no espelho do nosso próprio tempo, o fantasma que ainda não sabemos que nos assombra.
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