Por Que Você Sofre
Fundamentos da Psicologia
Gustavo Sanches
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Oito linhas da psicologia, oito respostas para a dor que iguala todos os humanos.

A mesma dor, respostas diferentes
Há perguntas que a psicologia nunca conseguiu responder em uma só voz, e a mais antiga delas é também a mais íntima: por que sofremos?
A dor psíquica é o que há de mais universal na experiência humana, e ainda assim cada grande tradição da psicologia a explica de um jeito, propõe uma origem distinta e prescreve uma saída própria.
Vale ler essas respostas não como uma lista de opiniões concorrentes, mas como um espectro. Em um polo estão as escolas que veem o sofrimento como uma espécie de erro, algo a ser corrigido. No outro, as que o veem como uma verdade, algo a ser escutado. Entre os dois extremos cabe quase tudo o que a psicologia já disse sobre a dor. Percorrer esse espectro é, no fundo, aprender a ler o próprio sofrimento por mais de um ângulo.
O sofrimento como erro de leitura
No polo da correção está a tradição cognitiva. Aaron Beck, ao fundar a terapia cognitivo-comportamental, retomou uma intuição que tem quase dois mil anos. O estoico Epicteto já dizia que não são as coisas que nos perturbam, mas os juízos que fazemos delas, e tanto Beck quanto Albert Ellis, cada um por seu caminho, transformaram esse princípio antigo num método clínico.
“Não são as coisas que nos perturbam, mas o juízo que fazemos delas.” — Epicteto, retomado por Beck
A tese é precisa: entre o acontecimento e o sofrimento existe sempre uma interpretação, e é nela, e não no acontecimento, que mora boa parte da dor evitável. Você não sofre exatamente pelo que aconteceu; sofre pelo que conclui sobre o que aconteceu. Se a interpretação pode ser examinada e corrigida, parte do sofrimento pode ser desfeita. É a aposta mais otimista do conjunto, e também a mais testável.
O sofrimento como apego
Próxima dali, mas em outra chave, está a sabedoria contemplativa que a psicologia contemporânea absorveu no mindfulness e na terapia de aceitação e compromisso. O budismo antigo já distinguia, na imagem das duas flechas, a dor da reação à dor: a primeira flecha é inevitável, vem do mundo; a segunda somos nós que disparamos, ao nos debatermos contra o que já é.
“A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.“ — Aforismo das tradições contemplativas modernas
A diferença em relação a Beck é sutil e decisiva. A tradição cognitiva quer mudar o pensamento; a contemplativa quer mudar a relação com o pensamento. Para Steven Hayes e a terapia de aceitação, a maior parte do sofrimento crônico nasce da esquiva experiencial, da recusa em sentir o que se sente. Aceitar a dor, paradoxalmente, é o que retira dela o poder de governar a vida.
O sofrimento como distância de si
Carl Rogers desloca a origem para dentro. Para a abordagem centrada na pessoa, o sofrimento nasce do abismo entre quem você é e quem aprendeu que deveria ser. Ao longo da vida, internalizamos condições de valor, exigências segundo as quais só merecemos aceitação se formos de determinado modo, e passamos a negar ou distorcer tudo em nós que ameace essa imagem.
O sofrimento, nessa leitura, é o preço da incongruência, da vida gasta defendendo uma versão aceitável de si contra a experiência real. E a saída é a mesma que dá título ao paradoxo mais conhecido de Rogers: aceitar-se como se é, porque é só a partir daí que a mudança se torna possível.
O sofrimento como conflito recalcado
Freud é o contraponto mais sombrio. Para a psicanálise, você sofre porque há em você algo que não pode ser admitido na consciência. O desejo recalcado não desaparece; ele retorna, disfarçado, como sintoma, sonho ou repetição. O sintoma é, na fórmula clássica, uma formação de compromisso: o ponto em que as forças em conflito, a que pressiona para se exprimir e a que pressiona para reprimir, encontram um acordo precário.
Isso muda radicalmente o estatuto da dor. O sintoma não é um defeito a eliminar, mas uma mensagem cifrada, a solução possível para um conflito que o sujeito não consegue resolver de outro modo. Suprimi-lo sem decifrá-lo é tratar a fumaça e ignorar o fogo.
O sofrimento como chamado
Aqui o espectro vira. Para Carl Jung, a neurose é o sofrimento de uma alma que ainda não encontrou seu sentido, e a dor funciona como educadora: aponta para aquilo que, em você, permanece por integrar. O sintoma não é só passado recalcado, como em Freud; é também um indicador do que a psique precisa para se tornar inteira.
Stanislav Grof, na psicologia transpessoal, leva essa intuição mais a fundo. Vistos com profundidade suficiente, diz ele, os sintomas psicológicos revelam-se como tentativas de cura, e não como doenças: o sofrimento seria o próprio sistema buscando se reorganizar em direção à totalidade. Mas, como visão, ele afirma que nem todo sofrimento é ruído a calar; parte dele pode ser sinal a interpretar.
O sofrimento como condição de existir
No polo oposto ao da correção estão os existencialistas, para quem boa parte da dor não é erro nem disfarce, mas o preço de estar vivo. Há angústias das quais não há fuga, porque nascem das próprias condições da existência: a morte, a liberdade, a solidão, a falta de um sentido dado. Rollo May situava a coragem não como ausência de desespero, mas como a capacidade de seguir adiante apesar dele, e a tradição existencial, mais tarde sistematizada por Irvin Yalom, fez dessas angústias últimas o centro da clínica.
Viktor Frankl, que extraiu sua teoria da experiência-limite dos campos de concentração, deu a essa linha sua formulação mais célebre.
“O sofrimento deixa de ser sofrimento no momento em que encontra um sentido.” — Viktor Frankl, Em Busca de Sentido, 1946
Para Frankl, a maior aflição do homem moderno não é o trauma, é o vazio: a vida sem porquê. O sofrimento não pode ser sempre evitado, mas pode ser transformado quando se torna portador de significado.
Onde elas se chocam, e onde se encontram
Postas lado a lado, essas linhas discordam no essencial. Para a tradição cognitiva, o sofrimento é em larga medida um erro a corrigir; para a psicanálise, uma mensagem a decifrar; para Jung e a transpessoal, um chamado à integração; para a existencial, uma condição a habitar. Mudam a origem da dor, mudam o método e muda até o que contaria como cura.
E, no entanto, há uma convergência que atravessa quase todas elas, e que talvez seja o achado mais útil deste mapa. De Rogers à terapia de aceitação, de Frankl a May, da sabedoria contemplativa a Jung, repete-se uma mesma intuição: a luta cega contra o sofrimento, a recusa em encará-lo, costuma aprofundá-lo. Aceitar a dor não é resignar-se a ela; é parar de gastar, na sua negação, a energia de que a transformação precisaria.
Como ler o próprio sofrimento
Resta a pergunta prática. Diante de oito respostas que discordam entre si, o que fazer com elas?
A tentação é escolher uma e descartar as demais. Mas o sofrimento humano não tem uma só forma, e talvez o ganho real de conhecer todas essas linhas seja exatamente este: poder reconhecer, em cada situação, qual lente ilumina melhor. Há dores que vêm de uma interpretação distorcida, e essas pedem o exame cognitivo. Há dores que vêm de um conflito não admitido, e essas pedem escuta. Há dores que vêm da distância de si, e essas pedem aceitação. Há dores que vêm da falta de sentido, e essas pedem um porquê. E há dores que simplesmente vêm de existir, e essas pedem coragem.
E em mais uma visão complementar, dentro de linhas mais transpessoais, temos a contribuição de Joanna de Angelis dentro da série psicológica proposta por ela, com a seguinte passagem: “Enfrentar, portanto, o sofrimento, sem válvulas psicológicas escapistas, é uma atitude saudável, muito distante da distonia masoquista habitual. Também resulta de uma disposição consciente para o homem enfrentar-se desnudado, com uma visão otimista em torno do futuro por conquistar. Realmente, o sofrimento faz parte do mecanismo da evolução na Terra.”
Numa visão complementar, ainda dentro das linhas transpessoais que surgiram recentemente, vale registrar a contribuição de Joanna de Ângelis na chamada Série Psicológica, conjunto de obras psicografadas por Divaldo Pereira Franco que põe a psicologia em diálogo com a perspectiva espitual. Nessa leitura, o ser humano é um espírito em evolução, e o sofrimento ganha um sentido que ultrapassa a biografia individual, como expressa a passagem:
“Enfrentar, portanto, o sofrimento, sem válvulas psicológicas escapistas, é uma atitude saudável, muito distante da distonia masoquista habitual. Também resulta de uma disposição consciente para o homem enfrentar-se desnudado, com uma visão otimista em torno do futuro por conquistar. Realmente, o sofrimento faz parte do mecanismo da evolução na Terra.” — Joanna de Ângelis
Conhecer o mapa inteiro não elimina o sofrimento. Mas oferece algo que a dor isolada raramente concede: a possibilidade de entender de onde ela vem antes de decidir como saná-la. E é difícil imaginar começo melhor do que esse para qualquer travessia.
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