A Postura do Terapeuta

Gustavo Sanches

Espelho, presença, encontro ou amparo: quatro clássicos e a pergunta sobre quem o terapeuta “deve ser” dentro da sala.

A pergunta antes da técnica

Numa entrevista, Carl Rogers diz algo que soa quase como uma confissão. Se ele sentir tédio diante de um cliente, ou mesmo ressentimento, gostaria que isso transparecesse na relação. Não por crueldade, mas por princípio: para ele, nenhum terapeuta ajuda de verdade a menos que consiga, de fato, ser ele mesmo, deixando que seus sentimentos reais estejam presentes no encontro.

A afirmação é desconcertante porque vai contra tudo o que se costuma imaginar sobre a figura do analista, aquele rosto impassível, aquela neutralidade profissional. E é exatamente por isso que ela abre a pergunta que estrutura este artigo. Antes de qualquer técnica, antes de qualquer interpretação, existe uma questão mais fundamental e mais difícil:

Quem o terapeuta deve ser dentro da sala?

Que postura, que atitude, que presença ele deve sustentar diante do outro?

Quatro clássicos da clínica responderam de maneiras radicalmente distintas, e percorrer suas respostas é entender que a postura do terapeuta não é um detalhe de estilo, mas talvez o seu principal instrumento de trabalho.

A tela em branco: a postura da neutralidade

A primeira resposta, e a mais influente, é a de Sigmund Freud. Em suas recomendações técnicas, Freud propôs uma postura de neutralidade, abstinência e anonimato. O analista não deve revelar suas opiniões, seus valores, sua vida, suas reações. Deve permanecer opaco, oferecendo ao paciente uma superfície sobre a qual este possa projetar.

“O médico deve ser opaco para seus pacientes e, como um espelho, não lhes mostrar nada além daquilo que lhe é mostrado.” — Sigmund Freud, Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise, 1912

A imagem do espelho não é gratuita. Para Freud, é justamente a discrição do analista que permite ao fenômeno central da cura, a transferência, se desenvolver sem contaminação. Se o paciente revive, na relação com o terapeuta, os afetos dirigidos a figuras de seu passado, então o terapeuta precisa funcionar como uma superfície relativamente neutra para que essa projeção apareça em estado puro e possa ser, enfim, interpretada. Daí também a atenção flutuante, a escuta que não privilegia nada de antemão, e o divã, que poupa o paciente do escrutínio do rosto do analista. A postura freudiana é a do reserva metódica: o terapeuta se apaga para que o inconsciente do outro fale.

A presença genuína: a postura da autenticidade

No polo oposto está Carl Rogers, e é dele que vem o corte que abre este texto. Para a Abordagem Centrada na Pessoa, a máscara de neutralidade não apenas é desnecessária como pode ser o próprio obstáculo. O que cura não é a opacidade do terapeuta, mas a sua presença genuína.

“Não acredito que um terapeuta possa ser útil a outra pessoa a menos que ele possa, de fato, ser ele mesmo.” — Carl Rogers

Rogers chamava isso de congruência, um dos três pilares de sua abordagem, ao lado da empatia e da aceitação positiva incondicional. Ser congruente significa que aquilo que o terapeuta sente por dentro e aquilo que ele expressa por fora coincidem; que não há fachada profissional separando a pessoa do papel. Por isso ele defendia que até os sentimentos incômodos, o tédio, o ressentimento, deveriam poder aparecer, com cuidado, na relação. Onde Freud apagava o terapeuta para revelar o paciente, Rogers tornava o terapeuta plenamente presente, apostando que é o encontro entre duas pessoas reais que faz algo começar a se mover. A postura aqui não é a do espelho, mas a da transparência.

O encontro que transforma: a postura da reciprocidade

Carl Jung deu um passo a mais, e em certo sentido o mais ousado. Para ele, não apenas o terapeuta deve estar presente como pessoa: ele também é transformado pelo processo. A relação clínica não é uma via de mão única, do médico que cura para o paciente que é curado, mas um encontro que afeta os dois.

“O encontro de duas personalidades é como o contato de duas substâncias químicas: havendo qualquer reação, ambas se transformam.” — C. G. Jung

Dessa convicção decorrem duas exigências características de Jung. A primeira é que o analista precisa, ele próprio, ter sido analisado, porque levará para a sala suas próprias zonas de sombra, e o que não conhece em si tende a atrapalhar o que tenta enxergar no outro. A segunda é a figura do curador ferido: longe de ser uma autoridade intocada, o terapeuta cura justamente porque conhece a ferida por dentro, e é essa humanidade compartilhada, e não a distância, que torna possível o trabalho.

Havia, porém, uma consequência ainda mais radical dessa postura, que Jung dirigia ao próprio terapeuta como advertência: diante de uma pessoa concreta, nenhum sistema teórico substitui o contato vivo.

“Aprenda suas teorias o melhor que puder, mas coloque-as de lado quando tocar o milagre da alma viva.” — C. G. Jung

A postura junguiana é, assim, a da reciprocidade consciente: estar inteiro no encontro, sabendo que também se sai dele modificado, e disposto a abandonar o mapa diante do território vivo que é cada paciente.

O ambiente que sustenta: a postura do amparo

Donald Winnicott, vindo da pediatria para a psicanálise, deslocou o eixo da interpretação para o ambiente. Sua intuição central é que boa parte do que cura não é o que o terapeuta diz, mas o tipo de presença confiável que ele oferece, análoga ao cuidado materno suficientemente bom dos primeiros tempos da vida.

Daí seu conceito de holding, o segurar. O terapeuta sustenta o paciente como um ambiente sustenta quem nele habita: pela constância do enquadre, pela confiabilidade, pela capacidade de suportar sem retaliar nem desabar. Winnicott observou que o terapeuta precisa sobreviver à destrutividade e à agressão do paciente, e que é justamente essa sobrevivência sem revide que torna a relação real e utilizável. E havia, no fundo de tudo, uma ideia surpreendentemente simples sobre o que acontece na sala.

“A psicoterapia se dá na sobreposição de duas áreas de brincar, a do paciente e a do terapeuta.” — D. W. Winnicott, O Brincar e a Realidade, 1971

A postura winnicottiana é a do amparo: menos a do intérprete arguto, mais a do ambiente confiável dentro do qual o outro pode, enfim, existir e brincar sem medo de desmoronar.

Quatro posturas, um mesmo encontro

Postas lado a lado, as quatro respostas desenham um espectro que vai da distância máxima à implicação máxima. Freud apaga o terapeuta para que a transferência fale; Rogers o torna presente como pessoa inteira; Jung o coloca dentro da reação, transformado junto; Winnicott o converte em ambiente que sustenta. Mudam o que cura, mudam o que o terapeuta deve mostrar de si, muda até o que conta como bom trabalho clínico.

E, no entanto, há um movimento que atravessa essa história. Da neutralidade freudiana em diante, a clínica caminhou de modo geral em direção ao reconhecimento de que a relação, e a pessoa do terapeuta dentro dela, é parte ativa da cura. A própria psicanálise contemporânea reviu o ideal da tela em branco e migrou para uma perspectiva relacional, de duas pessoas, na qual a subjetividade do analista deixou de ser apenas ruído a eliminar e passou a ser instrumento. E essa virada encontra amparo na pesquisa: décadas de estudos sobre os fatores comuns mostram que a qualidade da relação terapêutica está entre os preditores mais robustos de resultado, muitas vezes acima da técnica específica empregada. Em outras palavras, aquilo que Rogers, Jung e Winnicott intuíram, cada um a seu modo, a evidência veio confirmar.

O primeiro instrumento

Resta a pergunta prática. Diante de quatro posturas tão distintas, qual delas o clínico deve adotar?

Talvez a resposta não esteja em escolher uma e descartar as outras, mas em perceber o que todas, inclusive a de Freud, na verdade ensinam: que a postura do terapeuta nunca é neutra, mesmo quando se pretende neutra, e que ela trabalha o tempo todo, para o bem ou para o mal. Há momentos que pedem a discrição que deixa o outro projetar, há momentos que pedem a transparência que valida, há momentos que pedem o reconhecimento da própria implicação, e há momentos em que o mais terapêutico é simplesmente sustentar, sem interpretar nada. Saber qual postura o momento pede é parte do que distingue o ofício.

O que essas quatro tradições têm em comum, no fim, é uma lição que o corte de Rogers anuncia logo de saída. Antes de qualquer método, o terapeuta dispõe de um instrumento que carrega para dentro de toda sessão e do qual não consegue se separar: ele mesmo. Cuidar desse instrumento, conhecê-lo, afiná-lo, saber quando mostrá-lo e quando recolhê-lo, talvez seja a tarefa mais silenciosa e mais decisiva de quem se senta para escutar.

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